Está a chegar o Verão, meus rapazes, e com ele os sensualíssimos desportos náuticos e, para nós, a abertura oficial da época de caça.
Sejam uns queridos e não usem aquelas coisas larguíssimas, coloridas, floridas, riscadas e repletas de logos, com cordelinho de algodão na cinta e quase a tocar nos tornozelos.
Transformem-se nos homens que queremos como bússola. Desgrenhados e barbudos, de blusões de malha azul a ofuscar o mar, sonhadores e solitariamente mentirosos. Sejam flaneurs aquáticos de calções justos no início das coxas e troquem a prancha da piscina por veleiros ou façam com que acreditemos que o conseguem.
Quem se importará de vós, depois do Verão?!
Sobretudo, meus queridos, arranjem uma luxação num pé! Pode ser mito, estereótipo, léria e ladainha, mas, no fundo de cada rapariga, há sempre uma enfermeira em sentinela, pronta para vos cuidar.
No Verão, meus queridos, somos todas tão despreocupadamente inteligentes!
Imagine, minha querida, que é uma das convidadas para o Bal de la Croix Rouge de Monaco (em francês, soa melhor e faz “pandant” consigo).
Não deve pedir emprestado o colar Océan, porque não fica bem repetir as faíscas das outras, e não espere que Charlene de Mónaco coloque a prótese que lhe produz o sorriso, desate disparada, desenfreada, tresloucada e psicótica a uma qualquer Alexandre McQueen e incendeie o seu salário nesta adorável menina, a Metallic Wipstitich Box Clutch.
Não vai ter dinheiro para mais nada, mas, minha cara, recorra à modalidade cash-advance, perca a cabeça e os pés no Louboutin ou no Jimmy Choo. Depois, cole um número inevitável de post-it nos lugares que considera estratégicos e vá nua!
Ninguém vai perceber, porque toda aquela gente fica entretida a contar as rugas das encarquilhadas princesas (lembre-se que as palhaçadas, folguedos, traquinices e festins que nos divertem aos vinte, serão visíveis nas nossas caras a partir dos quarenta), pode sempre dizer que a esplendorosa clutch apaga, mata, torna transparente, invisível, dissolve e anula, qualquer trapinho que dela se aproxime.
Se, mesmo assim, alguém fizer qualquer reparo, diga que está a usar Fátima Lopes.
Uma rapariga não precisa de, todas as manhãs, perceber que a vossa vida, rapazes, saiu directa das páginas do Kama Sutra ou é apenas um folheto de Carnaval ou um pindérico romance de cordel.
As vossas olheiras, os vossos papos, as vossas manchas e maleitas faciais, as vossas borbulhas, os vossos lanhos labiais e outras pequenas mazelas, não nos deixam entusiasmadas. Mesmo aquele aspecto desregrado, normalmente acompanhado de um sorriso patético, de quem não dormiu por ter estado ocupado em manter acordada a companhia, não é, de todo, atraente para uma rapariga que começa a debicar o seu croissant.
Não simpatizo com aquilo a que chamaram metrossexuais e não me fascinam os posteriores uberssexuais.
Os portugueses são demasiado tímidos e inibidos (hoje estou tão benévola) e ainda consideram embaraçoso perguntar à menina do Shopping pela secção onde se podem encontrar com o creme hidratante ou com o pincel que lhe atenuará os pântanos negros que trazem debaixo dos olhos. Também me é desagradável beijar um homem que traz na boca o sabor do meu batôn e que usa e abusa do meu nécessaire.
Meus caros, existe no mercado, uma quantidade inimaginável de produtos dispostos a tentar transformar-vos em quotidianos, diários, modelos da Vogue, em todo o esplendor de uma página central.
Se fosse patrocinada, aconselharia, como seria evidente, Dior ou, mais económica, toda a gama Jean Paul Gaultier (Gaultier também sabe ser eficaz com discrição, reserva e tino, mas esqueçam-lhe os perfumes, sim?) que abrange, atenua e remedeia, com uma eficácia transbordante, toda a parafernália de maleitas que nos maça e arrepia (as borbulhas lunares são horripilantes e espremem todas as vossas hipóteses de dormir acompanhados).
Podem, na falta de melhor e de dinheiro, dar uma fugida a este sítio. O nome do referido não sugere coisa boa, mas, pelo menos, ficais a saber que as bases que deveis usar têm obrigatoriamente de possuir um ou dois tons abaixo do tom da vossa pele.
Perguntam-me curiosos, porque decidi ilustrar o que digo, com este rapazola pestanudo.
Há duas razões:
1 – Como não me parece provável que o que quer que seja vos transforme neste petiz deslumbrante que sugere ter saído de um filme erótico (e eu só vejo as capas), não me parece fácil encontrá-lo numa das esquinas das nossas vidas.
2 – Descansamos finalmente os olhos e preparamo-nos corajosamente para vos entregar o lenço de papel perfumado com que deveis espremer a espinha purulenta que vos cresceu na asa do nariz.
(Chanel Cruise 2012/13)
Minhas caras, este é um dos rostos Chanel 2012/13, portanto, respeitinho. A velha Senhora ainda o inspira.
Num primeiro relance, torna-se evidente a pertença da marca e não é apenas pelo logo de veludo, adesivo, que a menina traz na suavíssima face e que substitui na perfeição os insinuantes e codificados sinais oitocentistas.
Tudo aqui exala Chanel e tenho uma certa esperança que não seja o nº5. Apesar de ser a única gota que Marilyn vestia para dormir, de figurar no Metropolitan Museum of Art e de ter adquirido o portentoso Brad Pitt para o oferecer a todas as ingénuas, sempre me enjoou terrivelmente. Suspeito que a Monroe o usava apenas porque entrava em coma hiperglicêmico e passava uma noite descansada.
Apesar de reter traços muitíssimo vagos (e absolutamente menos tenebrosos) de Rooney Mara, a heroína Lizbeth Salander do “Millenium - Os homens que não amavam as mulheres”, o rosto Chanel está isento da pesada carga e tensão emocional, tantas vezes a rasar o sufocante e sombrio, da personagem do filme.
Interessa reter o mate rosa envelhecido, um esbatido salmão, distribuído uniformemente por todo o rosto e as sobrancelhas que adquirem grossura. Há nuances subtis nas arcadas supraciliares que se aproximam das têmporas com uma cor mais pronunciada, mais densa e mais dramática. Recorda, de certo modo, as gueixas que expandiam o olhar, aprofundando o mistério, com uma gota de vermelho junto ao saco lacrimal e prolongavam os olhos com sombra carmim.
O rosto Chanel 2012/13 torna-se um misto de ingénua e incauta leveza e de perigo insinuado, mas iminente. Como se Lizbeth Salander não tivesse nascido no negro do enredo de Stieg Larsson e que, pelo contrário, Chanel tivesse escrito um enigma de portas abertas.
Um anjo com esporas.
Sempre achei aflitivo, assustador, tenebroso e sinistro ter unhas maiores do que os dedos! Sempre me horripilaram as nails de gel com desenhos florais, riscas, zebras e tigresas.
Mas, minhas sofisticadas amigas, esta fotografia data de 1956 e pertence a Richard Rutledge que a captou para a Vogue.
Morro de inveja!
A cor do verniz é divinal, o recorte das unhas ajuda-nos imenso a passear pelos Ipads e a enviar SMS tocando levemente no BlackBerry, os anéis da Cartier, tal como os diamantes, sabemos de quem são os melhores amigos e, admitamos, os sapatos são de uma beleza indestrutível.
Há em nós, reconheçamos minhas queridas, pormenores que jamais necessitarão de bótox. São intemporais e dominam o tempo com a inoxidável classe daquilo que é perfeito.
É bom saber que já o Levítico (19:28) proibia a tatuagem e a perfuração dos corpos, mas é também curioso verificar, por exemplo, que, em 2000 A.C., os sacerdotes núbios apareciam preenchidos por escarificações, ou que os acólitos do culto de Cibele, na Roma Antiga, se tatuavam lindamente e que mesmo hoje os Mokos, Maoris, não se esquecem de rasurar na perfeição e furar com eficácia as suas carrancas e afins, domínios ligeiramente assustadores.
O Levítico, como se constata, não foi levado muito a sério.
Alterar o corpo, perfurando-o ou tatuando-o, não é caso para fazer tombar as armas e os brasões que desta forma se assinalam.
Lembro-me que senti uma paixão arrasadora, nova e noviça numa Faculdade que pesava de tão conservadora, por um rapaz que me conquistou a vida e mais alguns trocados de somenos importância, porque o vi, como um deus a passear pela brisa da tarde, de argola gigantesca presa na orelha. Brilhava o aro de ouro e brilhavam os meus olhos de menina e moça, levada tão cedo de casa de meus pais.
O fascinante objecto deixou de exercer o seu poder de enfeitiçar, quando vi o portador aos lúbricos beijos com o meu primo, que não usava brinco e era míope. Continuei a adorar o priminho, mas deixei pelo caminho a dor que mal se sente.
Portanto, meus queridos, saibam que não somos, de forma nenhuma, contra piercings e afins (os aros nas orelhas deste deslumbre devem ter nome específico), mas, neste preciso caso, sugerimos moderação.
Uma rapariga, ao contrário do que parece ser dito corrente, não aprecia grandemente um homem demasiado tatuado. Perde-se sempre a decifrar o olho do dragão ou a analisar a cauda do tigre. Torna-se confuso, e até embaraçoso, vermo-nos abraçadas e beijadas por uma multidão de desenhos, muitos deles a olhar, ameaçadores e fixos, para nós. Depois, meus caros, já não vão para novos. É confrangedor ver uma sereia encarquilhada.
Aplica-se a mesma recomendação em relação aos piercings. Se não forem, ainda que vagamente parecidos (não peço milagres) com o rapazinho perfurado que vos mostro, evitem as argolinhas nos lábios que nos sugerem, maldosamente, que podemos ficar com o batôn preso (desagradável se o estivermos a usar) ou que estamos na presença de um fã de uma série de vampiros de qualidade logicamente suspeita.
No meu caso, perdoo o uso das argolas. Fiquei sempre a pensar, depois da visão catastrófica do meu primeiro amor pendurado na boca do meu primo, se não seria má ideia prender-lhe, ao aro, as correntes de ferro de Alcatraz.
Não sejam tímidos!
Afinal, o calor é imenso e quando o sol se espalha sobre as ruas da cidade, a luminosidade masculina pode ser um trunfo.
Sejam ousados, conservadoramente ousados, que é uma das forma mais difíceis, e das mais inteligentes, que os homens raros conseguem dominar com perfeição.
Nada está errado na subtileza do pas de deux coreografado pela cor da camisa riscada e pelo blazer que se lhe sobrepõe com um discretíssmo quadriculado. Nada está errado na escolha do tom e da textura da gravata; no petit mouchoir que, perfeito, sem qualquer margem de erro, aparece no bolso do casaco; na selecção das calças, quase funil, quase insinuantes, de corte irreprensível; nos mocassins suavíssimos que recusam ser ignorados.
Esta é a imagem da luminosidade de que vos falo. O trunfo a ser usado quando a inteligência é solar nas ruas das cidades.
Já não me podem adicionar no facebook.
Não é de lamentar, porque sempre fui uma rapariga ignorada ou abandonada, neste tipo de redes que nunca coloco em dia.
No entanto, admitamos, uma rapariga esperta actualiza apenas aquilo que lhe oferece mais prazer e, tenho de assumir, que, para além do guarda-roupa (e daquilo que acaba de surgir nas vossas mentes saborosamente deparvadas), pouquíssimas coisas merecem uma dedicação quase diária.
Soltemo-nos, portanto, do dedinho do like e demos asas a outros mais ousados, porque a ousadia é a única rede onde nos devemos enredar.
Não é necessário, meus queridos, que usem o pássaro, para que fiquemos em estado de alerta. Suspeitamos sempre que nos vão falar de futebol e se há tema que nos maça é aquele em que debateis o que deveriam ter feito dois grupos de homens, gigantescos, musculados e suados, normalmente pouco dados à leitura, dentro de um relvado. Todas nós, raparigas espertas, sabemos exactamente o que poderíamos fazer com eles.
No entanto, não nos deixem de surgir, sobretudo com este ar mal-encarado, usando lenços étnicos (viram?! acertei) displicentemente enrolados no pescoço, camisola justa de malha fina com pormenores imprevistos, sobre camisa de padrão inesperado e calças com um ar vintage de morrer de tão perfeitas.
O conjugado não inclui a luva (apensa ao pássaro), mas podem, meus caros, usar discretamente os cordões em couro que prendem as patas da ave, no pulso.
Nós conhecemos o ditado e não vos deixaremos voar.
Sou informada que aquilo a que os especialistas chamam Fashion Trends (para os mais pindéricos, tendências de moda), não passa basicamente de uma operação relativamente complicada que reúne instruções de algumas fontes, nomeadamente sociológicas, antropológicas, societais, sociais (e sobretudo industrias, que orientam e manipulam de forma inteligente a população que querem tornar alvo).
Não me canso a desenvolver o assunto, apesar de me parecer bastante interessante tentar compreender, todos os anos e em quase todas as estações, para que lado vira o vento e qual a tralha em stock que se é obrigado a impingir, custe o que custar, usem-se as armas que forem necessárias.
Seria reconfortante compreender, por exemplo, como é que a paleta aqui apresentada reúne as cores imprescindíveis a quem se quer usável e visível. Reconfortante, mas não imprescindível, que nestas coisas muitas vezes a inteligência está adormecida nos domínios aveludados e fofinhos das mentes criativas.
(www.fashionising.com)
Acontece que, para lá das colorações, há, acompanhando-as, agrupados de linhas, formas, inspirações, geometrias, volumes e mais uma parafernália de conceitos que são traçados para conjugar o que parece evidente ao especialista e que transforma em bois aqueles que olham para estes palácios.
Determinada cor, em determinada estação, servirá determinada tendência a que atribuem um nome, simples ou rebuscado, mas sempre coadjuvante. O verde-macieira (o nome da cor é de importância capital e quanto mais indecifrável, melhor) estará portanto apenso à orchard-trend (por exemplo).
O interessante é que estas malabaristas operações trazem incomodativas constantes no seio de tanta inventividade.
Cada um destes grupos, quase sempre quatro, serve tipos bem definidos de consumidores. Assim, uma mulher cuja profissão a obriga a permanecer na direcção executiva de uma Empresa, tem um nicho, uma tendência, um quadro, um universo, especialmente pensado para a servir e a fazer consumir e que é, naturalmente diferente, daquele que a vizinha, artista plástica, ligeiramente tresloucada, com alguma propensão para fumar o que tolda o papagaio e faz tombar o gato.
Há sempre, e mais uma vez como exemplo, uma vertente étnica nesta aparente variedade bianual. Padrões inspirados nos usados pelas quenianas, formas desenhadas pelas nigerianas, acessórios baseados nos habitualmente pendentes nas raparigas de uma ilha qualquer da Indonésia ou volumes antárcticos que nos lembram o gelo de Amundsen.
Sejamos práticas! Exageremos.
Ficaremos definitivamente fashion, estaremos, sem sombra de dúvida, a seguir uma das propostas, seja em qualquer ano ou estação, se surripiarmos o colar que aqui vos mostro. É de uma tribo qualquer (nestas coisas com glamour, deixa de interessar o nome da origem) e é suficientemente grande e majestoso para que nenhum fashion adviser coloque hesitação ou torça o que quer que seja.
É evidente que, para o usar com alguma elegância, temos de ter mais de 1.80 de esqueleto ou tropeçamos nas contas e nunca, mas nunca, ousar colocar este colosso sobre as túnicas de Cesária Évora ou sobre os sacos de serapilheira usados pela Dulce Pontes.
Temos, apesar, de tudo, de ser comedidas e evitar internamentos compulsivos.
(Federico Cabrera)
Mesmo que os psiquiatras vos digam que realçar os lábios é subliminarmente um apelo sexual, transformando a boca num simulacro de vagina, minhas queridas, ignorem.
Como diz um maravilhoso amigo meu, o mundo seria muitíssimo mais simples sem Freud e sem Woody Allen.
Sejam sanguíneas. Atrevam-se, neste Verão, a trazer na boca a prova de que cometeram o assassínio de um beijo e que a vítima ficou exangue, não por lhe termos sorvido o necessário, mas por perceber que jamais conseguirá sobreviver sem a nossa boca.
Nota – Voltarei a este assunto brevemente…
O que separa, ao primeiro olhar, uma criatura angelical, ingénua, colegial, simpática e benévola, capaz de um voluntariado qualquer, repleto de boas intenções e de sacos de hipermercado, de uma cabra altiva, implacável, carniceira, dominadora, insensível e obstinada?
Num primeiro olhar (que, digam o que disserem, conta muito mais do que se pode imaginar) afirmaria, sem hesitar, os sapatos.
Evidentemente que há criaturas medonhas com laçarotes rasos nos pés e santas de salto alto, mas a experiência indica que o contrário é mais usual.
Não é, de modo nenhum, confortável andarmos a calcorrear os becos e as esquinas, com agulhas abissais e abismais nos pés, à procura de quem, normalmente, passa bem sem a nossa insistente caridadezinha e, pelo contrário, não há na Empresa ninguém que nos obedeça se tivermos calçados umas sabrinas amorosamente laçadas.
É escandaloso e triste, mas não podemos negar a evidência.
Os homens que iludidos pensam deter algum poder que nos supera, receiam as mulheres que são capazes de fenomenais equilíbrios, seja em que matéria for e ignoram ou, no máximo, sorriem condescendentes, perante a menina que lhes apresenta os dossiers completos e estudadíssimos das futuras aldeias olímpicas, com laços fofinhos a abanar nas extremidades inferiores.
Os homens, todas as raparigas espertas o sabem, são previsíveis.
Portanto, minhas queridas, deixem-se de tontices e usem estratégias inteligentes de compensação. Não insistam heroicamente no que sabem que não vai resultar perante a mente estereotipada do poder masculino. Usem os dados que eles viciam. Usem-nos a vosso favor.
Se querem ser obedecidas, tornem-se fisicamente maiores do que eles, cresçam com a ajuda de doze centímetros de Louboutin e façam como o cavalo do cortejo: passem, borrem o que há para borrar e sejam aplaudidas.
Se querem o ursinho de peluche com coleira de diamantes que vos servirá de pulseira, lacem os sapatinhos e saltitem.
Posso não ser feminista, mas, minhas caras, a verdade (a de alguns deles) usa sempre saltos altos.

Imagine que foi convidada para o casamento da sua melhor amiga.
Normalmente, antipatizamos categoricamente com o noivo, porque nos sobe pelas entranhas um ciúme rasteiro que é apanágio das raparigas que durante muito tempo foram cúmplices em todas as situações que a vida lhes propôs e que se vão passar a ter um poste entre as duas, supostamente para a vida inteira.
Podemos, como é evidente, arrasar o noivo, lançando subtis venenos ou insinuadas calamidades secretas acerca do pobre do rapaz que vai acabar, com tempo e paciência, por se tornar, invariavelmente, mais um amigo nosso agradável e compreensivo, tendo em consideração o facto de jamais lhe perdoarmos o ter casado com a nossa mais íntima confidente.
Podemos, também, abrir o curral (creio que é assim que se chama ao apartamento onde vive este animal) e soltar a cabra que nos consome por dentro.
Neste último caso, corremos alguns riscos. Segundo a regra instituída, obedecida, inteligível e de bom-tom, apenas a noiva usará o branco.
Pois, minhas caras, apareçam imaculadas!
Destruam o dia à pindérica que vos superou, abocanhando aquele nadador olímpico que vos sorria todas as vezes que se preparava para ouvir o disparo de partida. Arrasem a parola que não se coibiu de vos roubar o jogador de rugby que sempre que caía vos atirava um pedacinho de lama. Aniquilem a patega que teve a ousadia de desfolhar o vosso professor de Física Quântica que ficava com os óculos de tartaruga embaciados sempre que batia com as lentes nos vossos olhos cintilantes.
Surjam de branco!
Evidentemente que vai ser detectado o vosso péssimo gosto e revelado o vosso estatuto de animal de curral, mas usem o alvo deslumbre deste exemplo.
Há um inconveniente. Não se podem sentar sem amarfanhar desastrosamente o ramalhete. Levantam-se e as rosas de chantung, seda ou chantilly já derreteram, estão mortas, amarfanhadas pela amargura e pelo azedume da ocasião, e vão parecer que usam esfregonas, compradas nas promoções do Pingo-Doce, depois de assassinarem os rivais que já tinham chegado primeiro à secção dos detergentes, mas quem se quer sentar vestida desta forma?!
Aguentem estoicamente de pé a cerimónia. Confundam as hostes e belisquem as meninas das alianças, pisquem o olho ao padre quando o pobre sacerdote perguntar se há alguém contra aquele enlace, derramem pacotes de sal sobre os morangos, cuspam no Dom Pérignon, torçam-se com dor abdominal durante as entradas, rasguem e critiquem e destruam cada convidado, mas façam-no de pé. Um vestido destes não pode ter um rabo sentado.
Em alternativa, sejam a imperatriz.
Imitem Josefina e surjam prontas a napoleonicamente arrancar das mãos de um qualquer Pio VII a coroa do sucesso para a pousar na vossa cabeleira farta e enciumada.
Neste caso, basta ter cuidado para não pisar a bosta. Nestes casamentos, os noivos vão quase sempre de coche.
A mistura saborosíssima entre o aspecto de quem obriga o corpo a sofrer as agruras do ginásio e o ar de quem não descura nunca as tarefas do intelecto, é dificílima. Raramente uma rapariga esperta encontra esta conjugação tão atraente. Não lhe soa verídica, sobretudo quando as frases do musculado rapaz terminam sempre com um prontos efusivo.
No entanto, é possível!
Há que conseguir a ligação pouco frequente entre a t-shirt imaculada, que apenas insinua a divinal musculatura, o desleixo aparente de umas calças quase banais, seguras por um cinto de couro envelhecido que comunica em perfeitas condições com as botas de trabalho, ainda que aparentemente forçado, e aquele allure de quem tem o aprumo, a serenidade, a inpenetrabilidade e a seriedade (ainda que aparentes) do pensador que traz na mochila Proust e que nos faz lamentar o tempo que perdemos quando por eles passamos, sem nos darmos conta que é possível encontrar a união, tão sensual, entre a biblioteca e o ginásio.
Popularizado por BB, o quadradinho Vichy foi durante algumas décadas considerado feminino e, como é evidente, evitado pelos rapazes cuja sexualidade está nos padrões e nos tons que costumam usar e que nos deixam, ao fim de algum tempo, deprimidas e com uma sensação de vazio na alma digna de Florbela Espanca.
Pois, meus caros, saibam que o quadrado Vichy está imbuído de testosterona!
O padrão faz sombra ao Príncipe de Gales e deixa o pied-de-poule sozinho com a sua tradução.
Usem-no e façam-no complementando o encanto com aquilo que os entendidos chamarão qualquer coisa distinta daquela mais terrestre que costumo usar. Usem um lenço ao pescoço (écharpe para os amigos).
Mesmo sendo esse o acessório de charme dos idos anos 50, jamais esqueçam que dar o nó foi usual, banal e rotineiro apenas na mesma década, portanto, tornem-se inventivos, libertem-se e enrolem-nos, torçam-nos, enrodilhem-nos, embaracem-nos, façam-nos pertença exclusivamente, invejavelmente, inevitavelmente vossa (aos lenços e a nós).
Agradecemos.
Estou em destaque! A equipa do SAPO blogs decidiu presentear-me. Obrigada! São tão gentis!
Agora tenho de procurar juntar uns trapinhos grifados, para me sentir aprimoradamente endinheirada e procurar aquele ar de sofisticada displicência, que fica sempre bem numa rapariga que se quer mostrar indiferente em relação a qualquer padrão e a qualquer escolha de acessório, embora esteja, cá por dentro, aos saltos e aos gritos de alegria, como uma histérica psicopata que se esqueceu do Valium (do grupo dos benzodiazepínicos, como toda a gente sabe).
(High heel over Manhattan, November - 1950)
Esmaguem-me, chamem-me retro idiota, acusem-me de anacronismos, atirem-me à fogueira das vaidades, enfiem-me numa cela de convento, mas não me digam que não matavam, minhas queridas, para ter nos pés estes sapatos e aos nossos pés, assim calçados, esta Manhattan de outros tempos!
(S.S12 “FLEETING” Collection)
Rapazes, deixem-se de tolices!
Recusem-se a olhar para os modelitos imberbes, insossos, aguados e insípidos que preencheram os sonhos cor-de-rosa das adolescentes mais carentes (e carenciadas).
Recuperem o fabuloso aspecto do imaginário herói romântico, as estupendas cabeças dos boémios do século XIX e fascinem com o ar rebelde e despudorado dos flaneurs de outrora.
Recuso-me a falar da barba, a que já dediquei atenção significativa, mas não deixo de me perder na selvajaria voluptuosa, sensual e arrasadora dos cabelos em estudado desalinho, cujo paradigma português é, com ou sem corvos, a juba de Gonçalo Tocha (agora leoninamente actualizada).
Whatever you wear,
always dress to kill.